Artigo científico · Psicanálise, Educação e Estudos sobre as Masculinidades · 2026
Dados da publicação
Autores: Flavia Bonfim; Maria Luiza Mendonça Borges; Yasmin Bittencourt; Laís Paixão; Fernando da Silva Mancebo
Revista: COGNITIONIS – Scientific Journal
Volume e número: v. 9, n. 3, edição especial
Palavras-chave: Psicanálise; Educação; Virilidade; Violência de gênero; Discurso; Semblante
Sobre a produção
Este artigo busca conduzir uma reflexão que fomenta relações possíveis entre Psicanálise, Educação, virilidade e violência de gênero. Por meio de uma revisão bibliográfica, o texto aproxima as formulações psicanalíticas sobre discurso e semblante, os estudos sobre as masculinidades e a perspectiva pedagógica de Paulo Freire, buscando compreender como o ideal viril participa da formação dos meninos e de que maneira o campo educacional pode contribuir para o enfrentamento das desigualdades de gênero.
A discussão parte da articulação entre o significante “Homem” e o Discurso do Mestre, proposto por Jacques Lacan. Quando tomado como uma identidade aparentemente estável, esse significante procura recobrir a divisão que constitui o sujeito e sustenta um conjunto de expectativas acerca do que seria necessário para “ser homem”. Desde muito cedo, os meninos são convocados a construir um parecer-(menino)-homem, assumindo comportamentos associados à força, à autoridade, ao domínio e ao afastamento de tudo aquilo que possa ser relacionado ao feminino.
Nesse processo, a violência pode passar a integrar o repertório por meio do qual determinados sujeitos buscam confirmar sua posição viril. A família, os brinquedos, os meios de comunicação e a escola participam dessa socialização, produzindo e reiterando expectativas distintas para meninos e meninas. O artigo reconhece, contudo, que as masculinidades são plurais e atravessadas por diferenças de raça, classe, sexualidade, idade, deficiência e território.
A escola ocupa uma posição particularmente importante nessa discussão. Seus currículos, suas práticas e a própria organização dos espaços podem reproduzir hierarquias de gênero, mas o ambiente educacional também pode favorecer a circulação de outros discursos. Em diálogo com Paulo Freire, o artigo defende uma educação crítica e libertadora, sustentada pela reflexão, pelo diálogo e pela participação de meninos e homens no enfrentamento das formas de opressão e violência.
O trabalho nasceu no âmbito da pesquisa de iniciação científica Psicanálise e Estudos sobre as Masculinidades: investigações sobre “ser homem” no Brasil, coordenada pela professora Flavia Gaze Bonfim na Universidade Federal Fluminense. Participo desse grupo desde 2024, desenvolvendo estudos sobre diferentes dimensões das masculinidades em interlocução com a psicanálise, os estudos de gênero e outros campos do conhecimento. Após as discussões e apresentações realizadas ao longo desse percurso, avançamos sobre a relação entre educação, formação masculina e violência de gênero, processo que culminou na escrita coletiva deste artigo.
Ao pensar a educação como uma possível operadora de mudanças discursivas, o trabalho não pretende estabelecer um novo modelo ao qual os homens devam corresponder. Sua aposta está na criação de condições para que outras formas de existência possam circular, acolhendo a pluralidade das experiências masculinas e a singularidade de cada sujeito. Nesse sentido, questionar o ideal viril no espaço educacional também significa abrir caminhos para relações menos violentas e menos submetidas às exigências da dominação masculina.
Referência
BONFIM, Flavia; BORGES, Maria Luiza Mendonça; BITTENCOURT, Yasmin; PAIXÃO, Laís; MANCEBO, Fernando da Silva. Psicanálise e educação: por um debate sobre virilidade e violência de gênero. COGNITIONIS – Scientific Journal, [S. l.], v. 9, n. 3, edição especial, p. 1–18, e873, 2026. DOI: 10.38087/2595.8801.873.
