Artigo científico · Psicanálise, Estudos sobre as Masculinidades e Violência de Gênero · 2026
Dados da publicação
Autores: Flavia Bonfim; Laís Paixão Mendes; Fernando da Silva Mancebo; Maria Luiza Mendonça Borges; Yasmin Bittencourt Jaqueira de Santana
Revista: Revista Húmus
Volume e número: v. 15, n. 46
Palavras-chave: Ideal viril; Lógica fálica; Ódio ao feminino; Patriarcado; Racismo estrutural
Sobre a produção
A articulação entre ideal viril, lógica fálica e violência de gênero constitui o eixo central deste artigo. Por meio do diálogo entre a Psicanálise, os feminismos e os estudos sobre as masculinidades, o texto examina como determinadas formas de construção do masculino participam da reprodução cotidiana e persistente da violência contra as mulheres.
No campo psicanalítico, a reflexão retoma as formulações de Freud e Lacan acerca da castração, da lógica fálica, das fórmulas da sexuação e da recusa da feminilidade. O ódio ao feminino é compreendido a partir do encontro com uma alteridade que escapa à pretensão de completude sustentada pelo ideal viril. Quando excessivamente identificado aos semblantes de poder, domínio e autossuficiência, o sujeito pode localizar no outro aquilo que ameaça revelar sua própria falta, fazendo da violência uma tentativa de restabelecer imaginariamente a consistência da posição masculina.
Essa leitura é articulada às condições históricas e sociais que constituíram a masculinidade no Brasil. O artigo percorre as relações entre patriarcado, colonialismo e racismo estrutural, examinando como o discurso viril associa o reconhecimento como homem ao exercício da força, à recusa da vulnerabilidade e ao domínio sobre corpos femininos e racializados. A violência de gênero aparece, dessa maneira, como efeito de modos de subjetivação sustentados por discursos que atravessam a experiência singular e o próprio campo do inconsciente.
O trabalho nasceu no âmbito da pesquisa de iniciação científica Psicanálise e Estudos sobre as Masculinidades: investigações sobre “ser homem” no Brasil, coordenada pela professora Flavia Gaze Bonfim na Universidade Federal Fluminense. Participo desse grupo desde 2024, e desde então desenvolvemos estudos sobre diferentes dimensões da construção das masculinidades em diálogo com a Psicanálise, o Feminismo, os Estudos de Gênero, a Antropologia e a Sociologia. Um dos enfoques desse percurso foi a violência de gênero, tema que inicialmente mobilizou discussões e apresentações de trabalhos e posteriormente culminou na elaboração coletiva deste artigo.
A reflexão também interroga o lugar da Psicanálise diante da violência masculina. A escuta clínica exige a articulação entre a singularidade do sujeito e os discursos patriarcais, coloniais e racistas que participam de sua constituição, preservando sua responsabilidade pelos próprios atos e modos de gozo. A aposta do trabalho consiste na possibilidade de deslocar identificações organizadas pela dominação e abrir espaço para formas de masculinidade capazes de sustentar a diferença, a vulnerabilidade e o encontro com a alteridade sem recorrer à violência.
Referência
BONFIM, Flavia; MENDES, Laís Paixão; MANCEBO, Fernando da Silva; BORGES, Maria Luiza Mendonça; SANTANA, Yasmin Bittencourt Jaqueira de. Ideal viril, lógica fálica e ódio ao feminino: articulações psicanalíticas e históricas sobre a violência de gênero. Revista Húmus, [S. l.], v. 15, n. 46, p. 152–172, 2026.
